A conta de luz é um dos gastos que mais chamam a atenção no orçamento, e não sem motivo: a ANEEL projeta alta média de 9,4% nas tarifas em 2026, acima da inflação. Mas como o preço da energia se comportou no longo prazo? Calculamos, com os dados oficiais da própria ANEEL, quanto o consumidor residencial pagou em média por quilowatt-hora (kWh) em cada um dos últimos 20 anos, já com impostos.
De janeiro a agosto de 2006, o kWh residencial custava em média R$ 0,41. No mesmo período de 2026, custa R$ 1,00: alta de 141%. Parece muito, mas a inflação oficial no período foi de 195%. Se tivesse subido só o IPCA, o kWh custaria hoje cerca de R$ 1,22. O resultado surpreende, mas a história tem duas metades bem diferentes.
20 anos de tarifa de energia
O gráfico mostra o preço médio do kWh pago pelos consumidores residenciais do país, com ICMS e PIS/Cofins, ano a ano. A tarifa ficou praticamente parada até 2014, deu um salto em 2015 e não parou mais de subir:
Preço médio do kWh residencial no Brasil (consumidores atendidos pelas distribuidoras), com ICMS e PIS/Cofins. *2026: janeiro a agosto. Fonte: ANEEL, SAMP; cálculo do site.
O preço do kWh, ano a ano
Média anual com impostos. *2026: janeiro a agosto.
As duas metades da história
De 2006 a 2014, a conta ficou mais barata em termos reais. O preço nominal do kWh quase não mudou (de R$ 0,41 para R$ 0,42), enquanto a inflação subia ano após ano. Em 2013, o governo ainda reduziu a tarifa com a renovação antecipada das concessões de usinas e linhas de transmissão, e o kWh caiu para R$ 0,39.
De 2015 em diante, a conta disparou. Em 2015, o fim dos aportes do Tesouro, a seca e a criação das bandeiras tarifárias fizeram o kWh saltar 43% em um único ano, de R$ 0,42 para R$ 0,60. Depois vieram a crise hídrica de 2021, com a bandeira de escassez hídrica, e o encarecimento dos encargos e da energia comprada pelas distribuidoras. Em 2025, ano com vários meses de bandeira vermelha, o kWh passou pela primeira vez de R$ 1,00 na média do ano.
Houve uma pausa em 2022 e 2023, quando o teto do ICMS sobre a energia, criado por lei em 2022, reduziu o peso do imposto. Sem esse corte, a alta teria sido maior: a tarifa antes dos impostos continuou subindo nesses anos.
A conta de luz subiu mais que a inflação?
Depende do ponto de partida. Desde 2006, não: o kWh subiu 141%, contra 195% da inflação oficial.
Mas desde 2013, ano da tarifa mais baixa da série, a história se inverte: o kWh subiu 154%, bem acima da inflação do período. É essa segunda metade que explica a sensação de que a conta de luz não para de subir.
Quanto pesa no salário mínimo
Para uma casa que consome 150 kWh por mês, a conta (sem bandeira extra e sem taxa de iluminação pública) seria de R$ 62,02 em 2006 e de R$ 149,34 em 2026. Como o salário mínimo subiu bem mais que a energia nesse período, o peso da conta no mínimo caiu quase pela metade:
Para quem teve reajustes apenas pela inflação, porém, a conta de luz pesa hoje mais do que pesava em 2014, já que a tarifa subiu muito acima do IPCA desde então.
Para onde vai o dinheiro da conta de luz
De cada R$ 100 pagos na conta de luz residencial, a divisão média em 2026 fica assim:
- Energia: R$ 30, o custo de gerar ou comprar a energia que chega à sua casa.
- Impostos: R$ 26, ICMS estadual e PIS/Cofins federais.
- Distribuição: R$ 23, o que fica com a distribuidora para operar e manter a rede.
- Encargos setoriais: R$ 16, que bancam subsídios como a tarifa social, descontos a fontes renováveis e sistemas isolados.
- Transmissão: R$ 5, o transporte da energia pelas linhas de alta tensão.
Composição da tarifa residencial antes dos impostos: ANEEL, InfoTarifas (2026). Peso dos impostos: média de janeiro a agosto de 2026, ANEEL/SAMP; cálculo do site.
Só a parcela de encargos, que paga subsídios e políticas públicas, já equivale a cerca de metade do que se paga pela energia em si. Foi o crescimento desses encargos, puxado pela Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), um dos principais motivos para a alta das tarifas nos últimos anos.
O que esses números mostram
Em 20 anos, a energia elétrica ficou abaixo da inflação, e por isso pesa menos hoje no salário mínimo do que em 2006. Mas quase toda essa vantagem foi construída até 2014. Desde 2015, a tarifa sobe acima do IPCA, empurrada por secas, bandeiras tarifárias e encargos, e 2026 caminha para mais um reajuste médio acima da inflação.
Perguntas frequentes
Quanto custa o kWh hoje?
De janeiro a agosto de 2026, o consumidor residencial pagou em média R$ 1,00 por kWh no Brasil, já com ICMS e PIS/Cofins, segundo dados da ANEEL. O valor varia bastante entre distribuidoras e estados.
Quanto custava o kWh em 2006?
De janeiro a agosto de 2006, o kWh residencial custava em média R$ 0,41 com impostos.
A conta de luz subiu mais que a inflação?
Desde 2006, não: subiu 141%, contra 195% do IPCA. Desde 2013, sim: subiu 154%, muito acima da inflação.
Quanto de imposto tem na conta de luz?
Em média, cerca de 26% do valor pago em 2026 é ICMS e PIS/Cofins. A taxa de iluminação pública, cobrada na mesma conta pelos municípios, não entra nessa conta.
Fontes e método
- Preço médio do kWh: ANEEL, SAMP (dados abertos). Dividimos a receita faturada com energia dos consumidores residenciais atendidos pelas distribuidoras (inclusive tarifa social) pelo consumo em kWh; a versão com impostos soma ICMS e PIS/Cofins. Comparação 2006 x 2026 feita sempre de janeiro a agosto.
- Composição da tarifa e projeção para 2026: ANEEL, InfoTarifas, via Canal Solar (set/2026).
- Inflação: IBGE, IPCA (média de janeiro a agosto de 2006 e de 2026).
Veja também: quanto subiu o botijão de gás, o preço da gasolina em 25 anos e o reajuste do plano de saúde.